“Eu preciso de vergonha na cara”

Recentemente um “textão” ficou muito popular na internet. E é um suposto despejamento de verdades sobre o que significa se amar e ser saudável. Claro que muitas pessoas me enviaram e me pediram a opinião sobre isso. Ele pode ser lido aqui.

Eu honestamente não estaria reservando tempo na minha agenda para discorrer sobre isso se eu não achasse que é uma leitura que não ajuda as pessoas. Mas creio que vale o alerta.

Sou nutricionista e lido diariamente com pessoas que têm os mais diversos tipos de problemas com a alimentação e com a vivência do próprio corpo. E pensando em cada uma das pacientes que atendo ou alguma vez já atendi, não vejo como este manifesto antiaceitação possa ser uma contribuição positiva.

Numa sociedade que ensina (em todos os sentidos) que ser magro é BOM e ser gordo é RUIM, é evidente que qualquer conteúdo (em vídeo ou em texto) que reforce o status quo será vastamente aplaudido. Nada de surpreendente.

Mas eu, na posição de profissional da saúde, discordo de alguns pontos e me vejo no dever de refutar.

1) Eu não preciso de aceitação. Eu preciso de vergonha na cara.”

Uma autodepreciação triste.

TODOS NÓS precisamos de aceitação. Se não for externa, pois que seja interna. Somos seres sociais e precisamos SIM de validação. Partida de nós ou dos outros. Ou os dois.

Qualquer pessoa que não se sinta respeitada, acolhida, admirada, aprovada invariavelmente adoece emocionalmente. Bullying mata. Isolamento mata. Depressão mata.

“Eu me basto, não preciso de nada nem de ninguém” é uma grande mentira que muitos gostam de repetir enquanto batem orgulhosamente no peito. Mas o próprio ato de publicar um texto sobre o quanto você não precisa ser aceito é uma busca de validação.

“Eu preciso de vergonha na cara” é uma das coisas mais cruéis que alguém pode dizer a si mesmo. Eu nunca permito que alguém repita esse mantra na minha frente. Não existe isso.

Eu conheço nutriendocrinologistas que precisam de vergonha na cara.
Eu conheço life coachs que precisam de vergonha na cara.
Eu conheço blogueiras que precisam de vergonha na cara.
Eu conheço fisioterapeutas que precisam de vergonha na cara.
Eu conheço uma boa parcela de pessoas que precisam de vergonha na cara.

Mas eu não conheço nenhuma pessoa que desenvolveu algum tipo de problema com a alimentação porque não teve “vergonha na cara”.

Alimentação não é só o que a gente põe na boca. Existem questões familiares, sociais, culturais, psicológicas, cognitivas e emocionais envolvidas. E quando a pessoa não pode ou não consegue se alimentar normalmente a solução para isso não são ideias de senso comum. Não é simplesmente  “fechar a boca”. Não é se tratar com dureza e exigência.

Acreditar que tudo é uma questão de “vergonha na cara” não edifica a vida de ninguém. Nunca.

2) “Temos que comer para viver, não viver para comer”

Esta não é a definição de alimentação saudável.

Esta não é a definição de se alimentar normalmente.

Abraçar conceitos pragmáticos e utilitaristas sobre a comida não é se relacionar bem com ela.

Esqueça essas bobagens de “comida é combustível” porque para o ser humano, ela NÃO É só isso. Para o canário que come alpiste, pode até ser. Mas para as PESSOAS a comida tem valor sentimental, social, cultural e simbólico.

O principal papel da alimentação na nossa vida deve ser, sim, nutrição e sustento. Mas não é só isso. Nunca será. Nós comemos por razões que vão muito além do fisiológico e é normal que seja assim.

O papel de um bolo de aniversário não é alimentar ninguém. Ninguém mata fome com bolo. Mas ele é SAUDÁVEL porque envolve tradição, celebração, troca, felicidade.

(Função: trazer alegria)

Quem se alimenta saudavelmente e normalmente não repete máximas bobas. Mas sabe administrar as coisas com consciência. Come para viver mas TAMBÉM vive para comer. E não existe nada de errado com isso.

3) “Belo é ter saúde”

Eu concordo que “belo é ter saúde”, mas ter saúde não é sinônimo obrigatório de ser magro.

Existem pessoas magras que são 100% sedentárias, fumam, bebem, se enchem de salgadinhos.

Existem pessoas magras que investem tanto na ideia de ser saudável que ficam doentes (transtornos conhecidos como vigorexia e ortorexia)

Quando uma pessoa é magra, isso significa que ela é…magra. Nada além disso.

Para verdadeiramente constatar se uma pessoa é saudável, precisamos fazer uma avaliação completa e investigar sobre seus hábitos de vida.

Peso + medidas é um combo que define nada… absolutamente nada.

Uma pessoa gorda pode ser perfeitamente saudável. Não estou dizendo isso na posição de feminista frustrada, mas de profissional que lida com centenas de pessoas. Magras e gordas.

4) “Belo é poder se amar”

Emagrecer não é condição obrigatória para se amar. Justamente porque o amor é incondicional por essência.

Você não precisa fazer NADA nem conquistar NADA para “poder” se amar.

Simplesmente não é verdade que pessoas gordas “não podem” se amar porque o amor próprio não depende de fatores externos.

Você pode envelhecer, adoecer, engordar, emagrecer… Mas o amor permanece. O conceito que você tem de si permanece. VOCÊ permanece.

Não existe pré-requisito para praticar e cultivar o amor próprio e a autocompaixão. É uma atitude que faz bem para TODAS as pessoas e vai muito além dos aspectos visíveis.

5) A pessoa gorda deve assumir o erro e a culpa

Frase pesadíssima e autocondenatória.

Devemos assumir nossos erros, de fato. Mas ENGORDAR não é crime, pecado, delito nem vergonha.

…Por que haveria de haver culpa??

Guarde a culpa para os motivos certos e os momentos certos. Ser gordo não é um erro que você cometeu e agora tem que reparar. É só uma característica física.

6) “A aceitação é uma praga do feminismo”

Não posso dizer que não exista relação. Mas não é relação obrigatória e NEM SEMPRE a aceitação corporal é algo relacionado com política ou ideologia.

Pode ser simplesmente ciência.

Digo isso porque muitos profissionais da saúde e pesquisadores identificam com o movimento HAES, que significa “Health at Every Size” (Saúde em Todos os Tamanhos). Ou seja, são inúmeros estudos e pesquisas que apontam que os fatores verdadeiramente decisivos para uma pessoa viver com saúde não são as dimensões corpóreas, mas os hábitos que ela cultiva.

Ou seja: é muito mais importante TER UMA ROTINA SAUDÁVEL do que apenas ser magro (porque conforme mencionei anteriormente, ser magro como fato isolado significa rotundamente nada)

Profissionais do HAES defendem que uma vida saudável depende de:

Alimentação saudável + atividade física + cuidado com a saúde mental e emocional

…Mistério nenhum.

Não é patrulha feminista, é bom senso.

7) “Body Positive é uma ideologia que prega a destruição”

Isso não é verdade.

Tal afirmação só pode ser verdade dentro da sua cabeça se você confundir aceitação com comodismo. Existe uma gritante diferença e eu explico sobre isso AQUI.

Eu conheço uma ideologia que verdadeiramente prega a destruição. É o mercado do emagrecimento. É a ditadura fitness. É relacionar magreza com beleza, saúde, aceitabilidade e sucesso.

Associação direta de magreza com felicidade é uma das maiores e mais nocivas mentiras da civilização ocidental.

Passar a vida inteira tentando emagrecer fazendo dietas, se privando, contando pontos, tomando remédios estimulantes, se machucando na academia, investindo em procedimentos invasivos é um conjunto de práticas que não têm NADA A VER com saúde e que podem levar à baixa autoestima, depressão, transtornos alimentares diversos, destruição e morte.

Compaixão não destrói.

Respeito não destrói.

Gentileza não destrói.

O caminho da amorosidade não destrói.

Diga sim para si mesma. Do jeito certo.